domingo, 2 de agosto de 2009

OS CIENTISTAS - que saudade...


Quando eu era guri, cerca de 10 ou 11 anos (década de 70), em plena época de ditadura, a Editora Abril em conjunto com a extinta FUNBEC (Fundação Brasileira para o Desenvolvimento de Ensino de Ciências), lançaram a coleção “Os Cientistas”. Eram caixinhas de isopor tamanho A5, contendo vidros coloridos, lâminas da natureza, frascos mágicos (químicos), balança, molas, microscópio e muitas...muitas experiências no campo da física, química e biologia. Com certeza, hoje devem existir muitos cientistas ou professores que foram de alguma forma influenciados a exercerem suas profissões, intuito sine qua non do pesquisador Isaías Raw, que hoje chefia o Instituto Butantã.
Recordo que os comerciais da campanha publicitária da Abril eram convincentes e graças a eles, consegui adquirir a primeira caixinha que continha o cientista Volta, inventor da pilha. Com ele e com um pequeno manual acompanhado de uma lâmina plástica vermelha que permitia “visualizar” respostas às perguntas que vinham nele. Convencer meu pai a comprar a cada 15 dias aquelas caixinhas “mágicas” era a missão mais difícil. Hoje, imagino por conta disso que seu preço não era muito acessível, mas penso que se meus pais soubessem o valor que aquilo proporcionaria a longo prazo não pestanejariam um segundo em comprar todas as 50 caixinhas. De qualquer forma, consegui apenas ir até a metade e lembro perfeitamente que meu passatempo favorito naquela época, era o de visitar toda semana uma banca de revistas e sem demora procurar entre as demais revistas da época, a caixinhas brancas que populavam minha imaginação juvenil.
Certa vez, já com 13 anos quando ingressei no ginásio, minha professora de ciências, comentou sobre a célula e sua partes, a ameba e outros bichos. Indaguei se poderíamos visualizar tudo aquilo em um laboratório ou em algum microscópio, quando soube pra decepção de todos, que o colégio apesar de ser particular, de padres, não possuía laboratório ou sequer um microscópio. Todo faceiro ofereci a minha professora um empréstimo de microscópio para que ao menos minha turma (cerca de 40 alunos), pudesse prestigiar pessoalmente as maravilhas do mundo microscópio que ela tanto mencionava em suas aulas.
Como seria interessante se as crianças e jovens de hoje também tivessem acesso a algo similar com tanta facilidade. Hoje, imagino a alegria de Isaias Raw se soubesse o que apenas um de seus pequenos e majestosos microscópios, puderam proporcionar a um grupo de estudantes curiosos que não tiveram a mesma sorte que tive, de conhecer aquela fantástica coleção dos Cientistas. Aquela experiência também serviu para que eu percebesse a dura realidade daquele período, pois mesmo minha professora de ciências apaixonada pelo tema, não possuía um microscópio ou sequer teve acesso à coleção. Aliás, uma dura realidade que ainda perdura em nosso país.
Lembro também que muitos artefatos das caixinhas, como a bela balança plástica alaranjada de medidas precisas também serviam a outros propósitos além das experiências contidas dentro das caixinhas de isopor.
Recordo também de meu espanto ao verificar que uma bola de isopor caia com a mesma velocidade que uma de metal, das experiências com os carrinhos e bexigas da caixa de Newton e das caveirinhas (tóxico) que assustavam nossos pais que preocupados ficavam sempre “de olho” em nossas experiências, geralmente realizadas ao chegar da banca de revistas. Da bússola, dos tubos de ensaio, das placas petri, enfim um mundo de equipamentos que já nos possibilitavam, tão pequenos contato com o mundo da ciência.
As 50 caixas que eram acompanhadas de fascículos quinzenais, ainda traziam a biografia de cientistas, para ao final serem encadernados. Belas histórias ricamente ilustradas em papel coche, que proporcionaram conhecimento sobre a vida e obra de cada um daqueles cientistas. Lavousier, Volta, Eistein, Boyle, Arquimedes tornaram-se nossos amigos. Cada caixinha fazia uma ponte com experiências do cientista em questão. Idéia genial. Ao final tínhamos três volumes históricos e um pequeno e notável laboratório. Também lembro que anos depois, em uma loja de jogos e brinquedos visualizei umas caixas grandes azuis que continham grande parte ou todas as experiências dos Cientistas. Penso que a Abril junto a FUNBEC, resolveram aproveitar de maneira inteligente o conteúdo das poucas caixinhas que retornaram a editora e lançaram os tais laboratórios de maneira diferenciada sem prazo de venda nos comércios direcionados, mas também lembro que dessa forma o custo ficava nas alturas, permitindo acesso apenas a poucos privilegiados.
Mas, voltando a coleção Os Cientistas, a maioria das pessoas que conheço, que foram felizes em possuir tal coleção, já perderam na teia do tempo suas caixinhas ou seus conteúdos. Mas, algumas ainda possuem os fascículos e todas, sem exceção, lamentam não existir mais tal coleção, pois gostariam que seus filhos, sobrinhos (como é meu caso) ou netos, também tivessem oportunidade similar. Nada se iguala àquele momento mágico em que a cada 15 dias chegava uma nova caixinha contendo os sonhos de 50 cientistas que alcançaram as mentes de milhares de crianças e adolescentes e tudo isso graças aos esforços de um cientista que revolucionou as pesquisas de vacinas no Brasil. Obrigado Isaias Raw, realmente foi "a grande aventura da descoberta cientifica".

Para saber mais leia o artigo do Profº Mateus Pereira.

Se você conheceu Os Cientistas ou ainda possui os fascículos entre em contato comigo por aqui fazendo seu comentário, pelo mail cipexbr(arroba)yahoo(ponto)com e não deixe de visitar o blog "Os Cientistas".

Um comentário:

Paulo Trindade disse...

Ola
Chorei de emoção ao ver sua postagem..."Os Cientistas - que saudade..." diz tudo sobre a minha infância, experiências e a luta quinzenal para comprar as caixinhas...mas consegui montar meu microscópio e com 10 anos, vivia no meio de experimentos, pesquisas e laboratório do colégio...Minha mãe, batia perna numa máquina de costura, para pagar as caixinhas de Os Cientistas e logo depois, um curso de eletrônica na Occidental Schools, oqual só pude ir até a metade...Hoje trabalho com eletrônica...uma mistura de consertos (para sobreviver)e experiências de natureza variada...Agradeço muito a voce, que esta no meio acadêmico, informar sobre um relançamento de Os Cientistas ou algo similar...meu email : soseletronicasc@hotmail.com

Um abraço, esteja com Deus
Paulo Trindade